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terça-feira, 1 de setembro de 2015

O que fazer com as casas abandonadas no Japão


Desde que seu vizinho se mudou, há dez anos, Yoriko Haneda fez todo o possível para que a casa que estava vazia não se tornasse uma ofensa para os olhos. Haneda poda regularmente os arbustos, para que eles não interfiram na vista para o mar. Entretanto, não continuou seu trabalho de jardineira na casa seguinte, que também está desocupada e coberta de bambus.

No bairro de colinas a uma hora de Tóquio, as casas abandonadas são contadas em dezenas.

— Há casas vazias por todas as partes, lugares onde não vive ninguém há vinte anos, e a cada vez elas aumentam mais — diz Haneda, aos 77 anos, que logo se queixa dos ladrões que entraram duas vezes na casa vazia de seu vizinho e do tufão que causou danos ao telhado da outra casa.

Embora a aversão ao desperdício esteja enraizada na idiossincrasia japonesa, as casas abandonadas se espalham por todo o Japão. O índice de imóveis residenciais desocupados a longo prazo aumentou significativamente, acima dos valores dos Estados Unidos e da Europa, e a ilha tem atualmente cerca de oito milhões de casas vazias, segundo dados do governo. Quase metade delas foram abandonadas e completamente esquecidas. Nem sequer estão à venda ou para alugar. Simplesmente estão aí, com seus variados graus de deterioração.

Essas casas fantasma são o sinal mais visível do retrocesso populacional em um país cujo número de habitantes alcançou seu recorde há cinco anos e que, segundo as previsões, se reduzirá em dois terços durante os próximos cinquenta anos. A pressão demográfica tem sido um peso para a economia, já que uma população economicamente ativa cada vez menor deve financiar o crescente número de idosos. Além disso, tem gerado um intenso debate sobre propostas para fomentar a imigração ou para incentivar as mulheres a terem mais filhos.

Por enquanto, depois de décadas de luta contra a superpopulação, o Japão enfrenta o problema inverso: quando uma sociedade encolhe, as autoridades se questionam sobre o que se deve fazer com as edificações que já não são mais necessárias.

Muitas das casas desocupadas no Japão foram herdadas por pessoas que não precisam delas, mas que tampouco podem vendê-las por falta de compradores interessados. No entanto, demoli-las levanta questões complicadas sobre os direitos de propriedade e sobre quem deveria pagar essa despesa. Neste ano, o governo aprovou uma lei de impulso à demolição da maioria das casas em estado avançado de abandono. Mas, segundo os especialistas, a onda de novas casas vazias seria difícil de parar.

— Tóquio poderia terminar rodeada de muitas Detroit — diz Tomohiko Makino, especialista imobiliário que estudou o fenômeno das casas vazias.

Este fenômeno, que se limitava a localidades remotas, hoje alcança as cidades regionais e os subúrbios das grandes metrópoles. Mesmo na movimentada capital, a porcentagem de residências desocupadas está aumentando.

A cidade de Yokosuka está em linha de fogo. Com Tóquio à disposição para o trabalho e cercada de bases navais e de fábricas de automóveis, a cidade sabia atrair milhares de jovens em busca de trabalho na época do pujante crescimento econômico do pós-guerra. Nesta época, a terra era escassa e cara e, assim, os recém-chegados construíram casas pequenas e simples.

No entanto, esse surto se inverte inexoravelmente. Os jovens trabalhadores do pós-guerra são agora aposentados, e muito pouca gente, nem sequer seus filhos, querem ocupar estas casas.

— Os filhos desta geração agora vivem nas torres do centro de Tóquio. Para eles, a casa da família é um peso e não uma propriedade — diz Makino.

A taxa de nascimento do Japão está desde a década de 1970 abaixo do número necessário para manter a estabilidade demográfica, porque os jovens se casam cada vez mais tarde e as mulheres, ao ingressarem no mercado de trabalho, adiam a maternidade.

A cidade de Yokosuka está tentando reverter isso, incentivando os proprietários das casas abandonadas a limpá-las e a colocá-las no mercado em um "banco de casas vazias" online, onde podem mostrar propriedades de que as imobiliárias nem sem aproximam.

Os raros interessados pagariam uma verdadeira pechincha, mas até agora só uma residência foi vendida: uma casa de madeira de apenas um andar, sessenta anos de idade e um pequeno jardim, que estava avaliada em U$ 5,4 mil.

E há terrenos mais elevados, na subida das encostas, que podem ser comprados por algumas centenas de dólares. Quatro casas foram alugadas, uma delas a estudantes de enfermaria que conseguiram um desconto para, em troca, cuidar da saúde dos idosos da região.

Outras cidades testaram suas próprias soluções criativas, como oferecer reembolso efetivo aos outsiders que decidirem comprar e se mudar para uma casa. Algumas cidades conseguiram seduzir grupos de artistas e trabalhadores independentes que podem se manter conectados com clientes na cidade através da internet.

Existe até mesmo um projeto artístico próspero, o Echigo-Tsumari Art Field, que converte edificações desocupadas de uma série de pontos do nordeste em obras de arte. Os visitantes podem passar a noite em uma "casa de sonho", desenhada pela artista Marina Abramovic, que tem camas em formato de caixões e luzes coloridas para estimular os sonhos, ou recorrer a outros edifícios que foram esculpidos, pintados ou preenchidos com esculturas.

— Talvez não sejam utilizadas com seu propósito original, mas é importante que se conservem fisicamente. O importante é preservá-las para algo positivo — diz o fundador do projeto, Fram Kitagawa.

Entretanto, os números brutos sugerem que a quantidade de casas que podem ser recuperadas para habitação é limitada. Espera-se que a população atual de 127 milhões de pessoas do Japão se contrairá em um milhão por ano durante as próximas décadas. Os esforços para aumentar a baixíssima taxa de natalidade do país têm sido mal sucedidos e a população não parece disposta a se abrir à imigração em massa.

— Temos infraestrutura demais — diz Takashi Onishi, professor de planificação urbana e presidente do Conselho de Ciências do Japão.

O governo, segundo Onishi, acabará cortando os serviços públicos, como a água e a manutenção de estradas e pontes das zonas menos habitadas:

— Não podemos manter tudo isto. Temos que tomar decisões duras.

A solução mais direta para as casas abandonadas é demoli-las antes que elas se convertam em um perigo ou que estes bairros ganhem fama de inabitáveis. No entanto, muitas vezes é difícil rastrear seus proprietários, que não querem arcar com os custos da demolição.

Hidetaka Yoneyama, especialista do Instituto de Investigações Fujitsu, disse que até pouco tempo atrás as casas do Japão eram construídas para durar apenas cerca de trinta anos, mas logo eram demolidas e reconstruídas. A qualidade das construções está melhorando, mas o mercado de imóveis usados continua pequeno. As construtoras continuam produzindo mais de 800 mil casas e condomínios ao ano, apesar da abundância de casas vazias.

— Na era do boom econômico, isso era conveniente para todos — diz Yoneyama. Mas dentro de vinte anos, segundo alguns cálculos, mais de um quarto de todas as casas do Japão estarão vazias. — A coisa se inverteu. A população encolhe e ninguém quer viver nestas casas antigas.