sexta-feira, 26 de junho de 2015

Playground inclusivo


Nos últimos anos o Brasil obteve um avanço significativo em se tratando de acessibilidade. Hoje já vemos os cruzamentos com calçadas rebaixadas, banheiros adaptados, elevadores em estações de metrô, etc.

Mais uma coisa que ainda é difícil de se encontrar, são playgrounds com brinquedos adaptados para crianças com deficiência. Em outros países são comuns os parques públicos com brinquedos que possibilitam a diversão tanto de crianças com deficiência ou não.

Em São Paulo, no Parque do Ibirapuera existe uma área denominada “Playground Inclusivo”, que são brinquedos projetados para integrar crianças com e sem deficiência. Com rampas de inclinação suave, inscrições em braille, piso tátil e suportes ao alcance de uma criança sentada em uma cadeira de rodas, o playground propõe brincadeiras que misturam equilíbrio, força e estímulos sensoriais na medida exata para que crianças cadeirantes, cegas, surdas, com deficiência intelectual ou múltipla possam divertir-se com o máximo de autonomia.

Em outro parque de São Paulo, o “Ceret” localizado no bairro do Tatuapé, foi inaugurado no dia 30/06/2015, o primeiro playground verdadeiramente inclusivo da cidade de São Paulo. Todos os brinquedos adaptados para atender as crianças com deficiência foram doados pela Fundação Sergio Contente.


“Quem sabe o prefeito não se sensibilize com o playground inclusivo e leve a ideia para outros parques”, disse Sérgio, idealizador e mantenedor da Fundação.

A alegria e a emoção estavam nos rostos das mães e crianças, lagrimas escorriam pelos olhos das mães que muitos pela primeira vez estavam tendo a oportunidade de verem seus filhos brincarem em um parque público pela primeira vez.

Essa é uma ideia a ser seguida, precisamos de muitos mais parques como esse. Se você governante, administrador público, gostou da ideia e pretende implantar na sua cidade ou região, entre em contato com a Fundação Sergio Contente, que lá irá encontrar todas as instruções de como adquirir esses brinquedos.

Entre em contato com a fundação no site: http://fundacaosergiocontente.org.br/


quarta-feira, 24 de junho de 2015

Japão prepara importação de empregadas domésticas


Uma das grandes dificuldades da mulher japonesa é conciliar trabalho com as atividades domésticas. No país não existe a categoria de “empregado doméstico”. A tradição japonesa com relação à mulher, mesmo nos dias atuais, continua extremamente machista e desde criança são educadas a realizar as tarefas domésticas.
Mas felizmente, as coisas estão mudando.
O projeto de lei que cria uma “zona especial de estratégia nacional – que será votado no parlamento japonês ainda este ano – poderá abrir caminho para a criação de uma nova categoria de trabalhadores estrangeiros no país: as empregadas domésticas.
Com a criação da zona especial, as províncias de Osaka e Kanagawa serão as primeiras a receber as auxiliares de serviços domésticos na fase experimental do projeto.
A principal intenção do governo é ajudar as mulheres japonesas que desejam entrar no mercado formal de trabalho, mas são impedidas por causa das tarefas domésticas e criação de filhos.
Segundo o texto do projeto, as empregadas domésticas seriam recrutadas no exterior por agências certificadas pelo governo para atuar somente nas “zonas especiais” cobertas pela legislação.
“Isso vai ajudar as mulheres que têm forte desejo de entrar no mercado de trabalho, mas estão presas ao trabalho doméstico.” disse Shigeru Shiba, ministro encarregado das reformas especiais.
No entanto, o governo reconhece que, para o projeto ter sucesso, é necessária uma mudança na cultura das mulheres japonesas, que não estão acostumadas a repassar as tarefas domésticas para outra pessoa, principalmente as atividades relacionadas à criação dos filhos.


segunda-feira, 22 de junho de 2015

Comuns no Japão, máscaras oferecem pouco mais do que proteção psicológica

japoneses usando mascaras na saída da movimentada estação de metrô de Tokyo


Uma das coisas que mais me impressionou assim que desembarquei no Japão, é a quantidade de pessoas que andavam nas ruas com máscaras. Em todo lugar se via pessoas com máscaras, nas ruas, nos trens e metros, no trabalho, na escola. Até me acostumar com a ideia, foi meio complicado, mas depois até comecei a fazer uso das mascaras, mesmo sem saber se sua eficácia era comprovada.


Durante os meses de primavera e inverno, as máscaras cirúrgicas se tornam a principal arma dos japoneses contra o pólen e contra o vírus da gripe. Mas, será que elas são realmente eficazes?
Para os alérgicos ao pólen, que se espalha com o vento durante a primavera, a eficácia das máscaras é comprovada quase que instantaneamente. No entanto, contra os vírus invisíveis, elas oferecem pouco mais do que uma “proteção psicológica”, dizem especialistas.
Com a propagação do vírus assassino MERS, que já matou 23 pessoas na Coréia do Sul, a demanda por máscaras cirúrgicas cresceu vertiginosamente, obrigando uma fábrica no Japão, que produz máscaras com filtros especiais, a dobrar o número de funcionários e recusar pedidos, que partem principalmente de países asiáticos.
Enquanto as máscaras japonesas com filtros especiais, que custam até ¥9,980 (R$ 250,00) a caixa com 10 unidades, oferecem garantia de proteção contra vírus infecciosos, a grande maioria das cerca de 4 bilhões de máscaras vendidas no Japão anualmente não são tão eficazes.
Segundo, o professor do departamento de doenças infeccionais da Universidade de Tohoku, Mitsuo Kaku,“Usar máscaras não é garantia de imunidade”, “Pode-se afirmar, porém, que lavar as mãos regularmente e usar máscaras pode reduzir a propagação de microorganismos”, completou.
Para o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA, as máscaras “impedem que grande parte dos germes chegue até a boca e nariz, mas não são capazes de filtrar as partículas microscópicas que são transmitidas pela tosse ou espirro.
Desde o início do século 20, cobrir o rosto com uma máscara é uma questão de educação e etiqueta no Japão. Uma pesquisa realizada pela Kobayashi Pharmaceutical, mostrou que 70% dos japoneses acreditam que usar máscaras quando se está com resfriado ou gripe é apenas uma questão de boas maneiras.
Fonte: IPC Digital


quarta-feira, 10 de junho de 2015

Contra crise, moda no Japão são hotéis a preços baixos e com espaço mínimo

Hotel Cápsula no Japão

Com os números de turistas e de preços de hotéis no Japão subindo graças a um iene desvalorizado, empreendedores têm colocado a criatividade para funcionar em um novo nicho de acomodações cheias de estilo, mas baratas, em beliches, cabines e compartimentos de todos os formatos e tamanhos.

A diária para uma noite em um quarto duplo pequeno de hotel com serviço limitado na área central de Tóquio pode custar até 30 mil ienes (US$ 240, ou R$ 750) hoje. Mas, se você procurar um pouco mais, pode ir para a cama com conforto por uma fração desse valor.

A apenas dez minutos de caminhada do famoso bairro de compras Akihabara, em Tóquio, um prédio branco de oito andares chamado Grids fica entre blocos residenciais e de escritório. O hotel, uma conversão de um edifício comercial de 34 anos, aberto em abril, oferece quartos que custam de 3.300 a 5.000 ienes (R$ 82 a R$ 125) por pessoa.

A cama de um beliche em um quarto compartilhado é a opção mais barata, e inclui chinelos, toalha de banho e o uso de um armário com chave.

Uma habitação standard dupla, de 12 metros quadrados, com chuveiro e vasos sanitários compartilhados, custa 3.600 (R$ 90) ienes por pessoa. Se você veio com família ou amigos, o último andar tem um quarto premium, de 28 metros quadrados, com tatames em um piso elevado, onde os hóspedes também podem colocar futons para até quatro pessoas, com custo de 5.000 ienes (R$ 125) por pessoa.

"Converter um prédio de escritórios em hotel é uma maneira ideal de responder à imediata necessidade por leitos de hotéis", disse Yukari Sasaki, executivo da Sankei Building, incoroporador do Grids. "Construir um hotel do zero custa hoje muito dinheiro, por causa dos altos custos de construção".

Geralmente, leva-se cerca de três anos para construir um novo hotel; a Sankei gastou menos de um ano para abrir o Grids desde que começou a planejá-lo, no último verão [do hemisfério norte].

A empresa já prepara outra propriedade para o Grids, no distrito de Nihonbashi, próximo à estação Tokyo, e está planejando novos empreendimentos em Kyoto e Osaka.

Um recorde de 13,4 milhões de estrangeiros visitou o Japão no passado, em parte graças a um iene desvalorizado. O país quer aumentar esse número para 20 milhões até 2020, ano da Olimpíada de Tóquio, e para 30 milhões até 2030.

CABINE DE AVIÃO

A First Cabin também possui hotéis em prédios que antes eram comerciais em seis cidades pelo mundo. A rede cobra cerca de 5.500 ienes (R$ 137) por uma "cabine de classe executiva", com uma cama de solteiro e mais nenhum espaço adicional. Isso representa pouco mais de uma unidade de um dos famosos hotéis-cápsula japoneses, mas há um pé-direito suficiente para os hóspedes ficarem em pé. Por mais cerca de mil ienes (R$ 25), você consegue uma "cabine de primeira classe", com espaço para abrir uma mala e se trocar.
Hotel First Cabin, proporciona um pouco mais de espaço

O First Cabin em Tsukiji, próximo ao famoso mercado de peixes de Tóquio, é um prédio de escritórios que passou por retrofit, com um café no térreo, que vira um "wine bar" à noite. Hóspedes tomam banho em banheiros coletivos, para até dez pessoas.

Também há "hotéis de nove horas", baseados na ideia de que pessoas dormem por sete horas e precisam de uma hora antes e depois do sono, em Kyoto e no Aeroporto Internacional Narita.


Eles caracterizam-se por "módulos de dormir", similares às dos hotéis-cápsula, mas são mais elegantes e alegam possuir colchões melhores.


Fonte: Folha de São Paulo

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Eleição de miss Japão negra gera debate sobre racismo no país

Miss Japão - Ariana Miyamoto
Um concurso de miss no Japão vem gerando um debate no país que vai muito além das medidas das candidatas ou dos vestidos usados.
A polêmica ganhou força logo após Ariana Miyamoto colocar a faixa de miss Japão. Tudo porque a jovem de 20 anos é mestiça – sua mãe é japonesa e seu pai, um americano negro.
A vitória de Ariana, que ocorreu em maio, trouxe à tona um problema que não é discutido abertamente no país: o racismo.
A própria jovem contou que decidiu participar do concurso depois do suicídio de um amigo, que também era mestiço.


"Ele tinha 20 anos e sofria com problemas de identidade", disse ela à agência de notícias EFE. "Quando ele morreu, decidiu que tinha de fazer algo a respeito."
Ariana é a primeira japonesa mestiça a representar o país no concurso Miss Universo. No Japão, os mestiços são chamadas de hafu (palavra que vem do inglêshalf, que significa "metade").

 Segundo o correspondente da BBC em Tóquio, Rupert Wingfield-Hayes, é dessa forma que os japoneses definem alguém que "não é estrangeiro, mas também não é completamente japonês".
E Ariana diz conhecer bem essa situação. "Quando digo que sou japonesa, as pessoas não acreditam, dizem 'ah, não pode ser'", conta.
Sua vitória gerou uma onda de repercussões negativas nas redes sociais nipônicas. "É certo eleger uma hafu para Miss Japão?", questionaram muitos internautas.
" Me incomoda pensar que ela representa o Japão", disseram outros.
Segundo o correspondente da BBC, a sociedade japonesa tem uma visão bastante limitada do que significa ser japonês.
"O que vejo nas ruas de Tóquio é algo muito monoétnico", disse Wingfield-Hayes. "Os japoneses têm uma tendência em acreditar que são únicos, mas isso não é verdade: são uma mistura étnica, com coreanos, chineses."
As estatísticas mostram que o Japão já não é o país homogêneo que muitos acreditam.

Futuro heterogêneo

Uma em cada 50 crianças nascidas no país é mestiça, o que equivale a 20 mil bebês por ano. Para o correspondente da BBC, o Japão está mudando.
Mas atualmente, a visão predominante segue sendo conservadora.
Um exemplo disso é a pouca atenção dada pela mídia à vitória de Ariana.
"Definitivamente, eu recebo mais atenção de fora do Japão. Quando ando pelas ruas, nenhum japonês me reconhece, mas muitos turistas estrangeiros me param para me cumprimentar", contou a miss à BBC Mundo.
A grande pergunta agora é o que acontecerá com Ariana se ela conseguir a coroa de Miss Universo, no concurso que ocorre no início de 2016.

Fonte: BBC Brasil


quarta-feira, 3 de junho de 2015

Cruel, muito cruel


Até quando iremos continuar sofrendo com os serviços públicos no Brasil? Atendimento à saúde, educação, transportes, sempre tem algum problema em suas estruturas e quem acaba sendo prejudicado é a população.

Hoje pela manhã fui vítima de mais um desses “problemas”. A greve dos trabalhadores da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) causou transtornos a milhares de usuários e pegou todos de surpresa, pois a noticia de que os trabalhadores iriam entrar em greve foi divulgada apenas por volta das 22h00min de ontem.

Utilizo os trens diariamente para me deslocar para o trabalho de Mogi das Cruzes até o bairro do Tatuapé na capital paulista, e o trajeto é feito em aproximadamente uma hora e dez minutos. Hoje como não tínhamos os trens, a opção foi optar pelos ônibus intermunicipais, e a experiência foi a mais terrível que já passei. Para começar, não conseguia entrar no ônibus, tamanha a quantidade de pessoas nos pontos, e tive que esperar passar 3 coletivos até conseguir entrar, e depois tudo de ruim que poderia acontecer, realmente aconteceu em dobro. O trânsito estava completamente congestionado, muitos veículos nas ruas, pessoas aos montes nos pontos de ônibus, o anda e para e a viagem só começava. Acreditem, levei 4 horas para percorrer um trajeto de aproximadamente 60 km.

Como dizia o antigo narrador esportivo, Januário de Oliveira – “Cruel, muito cruel”, ele se referia quando o goleador do time fazia um gol. No meu caso, foi muito cruel a verdadeira aventura enfrentada hoje. Não estou mais na idade pra enfrentar tudo isso. Nós trabalhadores honestos não merecemos tanto sofrimento, não sou contra as reivindicações por melhorias de salário, mas desde que nós trabalhadores não sejamos tão prejudicados.

Morei por muito tempo fora do país, no Japão, e lá essas profissões são muito valorizadas, um professor tem o mesmo status e importância que um médico. Um motorista de transporte coletivo, ônibus ou ferroviário também é muito valorizado, pois está sob sua responsabilidade, a vida de várias pessoas.


Hoje a desilusão é grande, não vejo perspectivas de melhora, e sempre me lembro da frase de uma pessoa que era entrevistada no aeroporto quando partia para fora do país. Ela dizia assim, “Não é que eu queira ir embora, mas o Brasil está fazendo com que eu parta, está aos poucos me mandando embora para fora”.

terça-feira, 2 de junho de 2015

Revisão das leis do trânsito para ciclistas entra em vigor no Japão


No dia 01/06/2015, entrou em vigor no Japão uma revisão das leis do trânsito. Ciclistas que forem flagrados repetidas vezes realizando infrações perigosas, como ignorar os semáforos ou pedalar enquanto usam seus smartphones, terão de fazer um curso de regras de segurança.

De acordo com as leis de trânsito do Japão, bicicletas são definidas como veículos. Em anos recentes o número de acidentes envolvendo ciclistas e pedestres aumentou bastante. Só no ano passado chegou a 542 o número total de acidentes fatais envolvendo bicicletas.

Segundo o especialista em políticas para bicicletas e pesquisador executivo do Instituto de Pesquisas Sumitomo Mitsui Trust, Muneharu Kokura, ainda não foi possível diminuir o uso perigoso das bicicletas, por um simples motivo:

 “Um fator é que muitos ciclistas não sabem que a bicicleta é um veículo, e por isso não se sentem obrigados a obedecer as regras do trânsito. A culpa desta situação é uma revisão feita em 1970. Naquela época o Japão encontrava-se no auge da chamada “guerra do trânsito”, com mais de 16 mil mortes anuais por acidentes.

Acidentes envolvendo carros e bicicletas também aconteciam com frequência, por isso a revisão permitiu que bicicletas transitassem pelas calçadas, com o objetivo de separá-las temporariamente dos carros. Contudo, esta medida provisória acabou ficando em vigor até os dias de hoje.
Como resultado, acidentes entre ciclistas e pedestres passaram a ocorrer com frequência. Em 2007 o governo criou uma regra segundo a qual, em princípio, as bicicletas deveriam circular nas ruas e o trânsito nas calçadas seria aceito apenas como uma exceção. 

Não havia um sistema de multas para infrações de ciclistas. Punições criminais eram o único tipo existente para ciclistas. Se as autoridades quisessem puni-los, isto teria de ser feito de forma mais severa do que aos motoristas de automóveis. Isso dificultou a imposição das regras.

A revisão que entrou em vigor na segunda-feira obriga infratores a participarem de um curso sobre segurança. Isto é um passo diferente da simples imposição. O curso de segurança é um local para aprender e tem como objetivo a educação dos ciclistas. Ao se locomover nas calçadas as bicicletas precisam ir mais devagar e ficar no lado próximo à guia. De acordo com a revisão, as autoridades vão ser mais severas na imposição das leis, para que essas obrigações sejam cumpridas. Pessoas que usam bicicletas perigosamente serão punidas e obrigadas a participar de seminários de segurança como uma consequência de seus atos. Acredito que a revisão vai aumentar significativamente a segurança dos pedestres”.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

'No Japão, terra dos meus pais, descobri que sou 100% brasileiro'


Fitas coloridas de papel vão se rompendo à medida que o navio Kasato Maru se distancia do porto de Kobe. A bordo, 781 pessoas, de 151 famílias, choram e acenam com lenços aos que ficam. Partiam com o coração cheio de incertezas e de temores. Mas a vontade de vencer era, com certeza, muito maior.

O destino final: porto de Santos, no litoral de São Paulo. Começava ali, no dia 28 de abril de 1908, a primeira de uma série de viagens que levaria os imigrantes japoneses para o Brasil.

Depois de quase oitenta anos, foi a vez dos brasileiros fazerem o caminho inverso.

O repórter da BBC, Ewerton Tobace, relata suas passagens como filho de imigrantes no Brasil e o outro lado, de brasileiro no Japão.

Saíram do Brasil em direção à "terra do sol nascente" com o mesmo espírito dos antepassados que um dia cruzaram os mares. Queriam vencer, de alguma forma, no exterior.

O movimento ficou conhecido como decasségui (出稼ぎ, dekasegi), cuja palavra significa, literalmente, sair de sua terra para trabalhar em outro lugar.

Hoje, pesquisadores tendem a torcer o nariz para a palavra, pois ela ficou impregnada de conotações negativas e discriminatórias, muito ligada ao trabalho não qualificado.

A BBC Brasil publica, ao longo desta semana, uma série especial de reportagens contando a trajetória de vários decasséguis, para marcar os 25 anos da chegada deles ao Japão.

Eu cheguei ao Japão para trabalhar como jornalista em um periódico que circulava na comunidade.

Já tinha ido ao país outras duas vezes, apenas para rever a família que morava por lá havia algum tempo. Mas, na terceira vez, a mala foi feita para uma longa estada – já se foram 14 anos.


Fui por dois principais motivos: para ficar perto da família e entender melhor as minhas raízes. Queria ver de perto aquela terra que meus avós tanto comentavam e sonhavam poder rever um dia.

Meu avô, Torazo Tobace, chegou com a família em 1955 ao Rio de Janeiro e, de lá, eles foram para o interior de São Paulo. O restante dos irmãos e os pais dele haviam imigrado bem antes da Segunda Guerra Mundial.

O mais interessante na minha jornada ao Japão foi descobrir minha verdadeira identidade.
No Brasil, é muito comum sermos chamados de japonês e haver uma "pressão" da sociedade para nos comportarmos como um verdadeiro nipônico.

Mas no país dos meus pais fui descobrir que sou mesmo 100% brasileiro, pelo meu jeito de pensar, de agir e, claro, pelo meu idioma materno.

Pesado, sujo e perigoso

Oficialmente, o movimento de retorno teve início em junho de 1990, com a mudança na legislação de imigração japonesa.

A partir daquele ano, os descendentes nipônicos ganharam o direito a um visto temporário de longa estada, que permitiu a atividade econômica no país.


Estes pioneiros carregavam na bagagem, além de roupas e mantimentos – enlatados, café, feijão e embutidos para não sentirem saudades da comida brasileira –, muita esperança.

Não se importavam com o emprego, desde que ganhassem bem. Afinal, o objetivo da maioria naquela época era juntar uma boa poupança e, no máximo em três anos, voltar ao Brasil.

Desempenhavam funções caracterizadas pelos japoneses como três "k" – kitsui (pesado), kitanai (sujo) e kiken (perigoso). Posteriormente, os próprios brasileiros incluíram mais dois adjetivos: kibishi (rígido) e kirai (desagradável).

Passados 25 anos, o cenário mudou bastante. Agora, os brasileiros que chegam ao país não levam mais mantimentos nas malas. Com o crescimento da comunidade, surgiram as lojas de produtos brasileiros, que suprem todas as necessidades.

Talvez a principal característica em comum seja a vontade de voltar, um dia, ao Brasil. Porém, o retorno é sempre adiado, e estes imigrantes acabam se tornando permanentemente temporários no Japão.

Mas há também uma grande parcela que toma passos concretos para ficar em definitivo no país, como comprar casa própria, buscar o visto permanente ou mesmo a naturalização japonesa.

Para os que continuam a fazer a ponte aérea Brasil-Japão, o principal motivo é o econômico, mas há aqueles que já não conseguem mais se readaptar ao país natal.

Adaptação ao país

Confesso que a cultura japonesa não é tão fácil de se assimilar e, mais ainda, de se acostumar. É preciso ter muita paciência para entender tantas regras sociais.
Principalmente quando se tem aparência física de japonês mas atitude de brasileiro, que é o meu caso e o da maioria dos conterrâneos.
 
Foto de crianças a bordo do navio que levou leva de imigrantes japoneses ao Brasil, após a Segunda Guerra Mundial (Foto: Arquivo Pessoal)
Tanto que, no começo, os problemas decorrentes da chegada dos brasileiros ao Japão se resumiam basicamente a atitudes que demonstravam claramente a falta de conhecimento da cultura e dos hábitos locais.

Hoje, estas questões ainda provocam calorosas brigas entre vizinhos, mas os principais problemas são outros. Educação, violência e previdência estão entre os temas mais discutidos nos últimos anos.

Afinal, qual será o futuro das crianças chamadas pelos pesquisadores de "duplamente limitadas" ou "semilíngues", ou seja, que não possuem domínio em nenhum dos idiomas (japonês ou português)?

Ou então das que estudam em escola brasileira, com a esperança de voltar ao Brasil para continuar os estudos, e acabam permanecendo no Japão? E aquelas que são educadas como japonesas e crescem em meio a conflitos de identidade?

E mais: o que fazer para conter o alto índice de violência na comunidade? E os adultos, que estão envelhecendo e não têm nenhum plano de aposentadoria lá ou no Brasil?

Os governos dos dois países batalham para resolver os problemas. A embaixada do Brasil em Tóquio possui inclusive uma seção, chamada Comunidade, inexistente em outras representações brasileiras no mundo.

O diplomata que assume o cargo tem como tarefa principal discutir, na esfera política, assuntos ligados à comunidade brasileira que vive no arquipélago.

Em 2010, por exemplo, após anos de negociação, os dois países assinaram um acordo previdenciário.

Fonte: BBC Brasil - Ewerton Tobace
Fotos: arquivo pessoal